Apresentação do Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" - PSE (*)
Parte I: O Programa em Contexto
1. Apresentação
2. Uma Nova Sociedade
3. O Desafio
4. A Visão Atual da Educação
5. A Visão Atual do Papel da Escola
Parte II: A Educação e a Escola na Nova Sociedade
1. Uma Nova Visão da Educação
2. Uma Nova Visão do Papel da Escola
3. A Tecnologia na Educação e na Escola
1. Objetivos
2. Organização Curricular
3. Métodos de Trabalho
4. O Papel do Aluno
5. O Papel do Professor
6. A Organização do Espaço e do Tempo
7. Formas de Gestão
8. Relação com Outras Instituições
Parte IV: A Educação, a Escola e a Tecnologia
Parte I: O Programa em Contexto
O programa "Sua Escola a 2000 por Hora" é mantido, desde 1999, pelo Instituto Ayrton Senna, em aliança estratégica com a Microsoft e com apoio regional da TCO Centro-Oeste Celular.
O objetivo do programa é melhorar a qualidade da educação ministrada nas escolas públicas brasileiras usando a tecnologia como alavanca e tendo como contexto as mudanças que ela está produzindo na sociedade.
Em termos de estratégia, o programa trabalha diretamente com 56 escolas, chamadas de "escolas parceiras", selecionadas dentre cerca de 2.500 escolas, em dez estados brasileiros, que submeteram projetos para o uso da tecnologia na educação. Mas, do ponto de visto estratégico, a característica única desse programa está no reconhecimento de que por mais que ele faça para ajudar essas 56 escolas a melhorar a qualidade de sua educação, isso será muito pouco em termos da necessidade do país. Por isso, as 56 escolas foram selecionadas para que nelas e com elas se construam soluções e metodologias (uma verdadeira "tecnologia social") que possam beneficiar todas as demais escolas que não estão diretamente envolvidas no programa.
O programa vem descobrindo, ao longo dos últimos dois anos, o que funciona e o que não funciona nas diferentes realidades enfrentadas pela escola pública no Brasil. À medida que essas descobertas acontecem, elas vão sendo registradas, analisadas, testadas e compartilhadas com as demais escolas, pelos mais diversos meios.
A rede de 56 escolas funciona, portanto, como uma "sementeira" em que soluções e metodologias são construídas, testadas e disseminadas para as demais escolas públicas brasileiras.
Assim, a estratégia do programa está baseada em dois eixos de trabalho: o Fazer e o Influir.
No plano do Fazer, suas ações estão voltadas para a atenção direta às escolas parceiras
No plano do Influir, suas ações estão voltadas para conseguir que outras instituições se envolvam na causa da melhoria da qualidade da educação através do uso criativo e inovador da tecnologia
No plano do Fazer, para ajudar as escolas parceiras a melhorar a qualidade da educação que ministram, o programa usou, nos anos passados, visitas de orientadores, encontros presenciais, listas de discussão pela Internet, e o site (que contém uma pequena biblioteca virtual e um fórum). Neste ano, o programa está, no plano presencial, realizando reuniões de Grupos de Trabalho Estaduais (GTEs), um para cada um dos dez estados em que o programa tem escolas parceiras), dos quais a primeira rodada já foi realizada em Março e Abril (haverá mais duas rodadas de dez, para um total de trinta reuniões), e, no plano virtual, utilizando ativamente Grupos de Discussão pela Internet (GDIs), nome dado às listas de discussão, de modo a dar continuidade ao que foi planejado nos encontros presenciais: há um grupo de discussão geral e vários grupos temáticos (dos quais o do jornal virtual é o mais ativo no momento). Haverá, também, a partir de Maio, outras atividades, como as Experiências de Aprendizagem Colaborativa (EACs), que são experiências de educação a distância, via Internet.
No plano do Influir, o programa realizará este ano dois Fóruns Nacionais (dos quais o primeiro será em Belo Horizonte em Junho) e elaborará um kit com uma publicação (um livro) e um vídeo (ou mais de um). Há plano ainda de, no início do ano que vem, realizar um congresso internacional - mas esse plano ainda requer confirmação.
Embora possa parecer que a parceria do Instituto Ayrton Senna com o Canal Futura se encaixe apenas no segundo desses planos, o do Influir, por envolver um trabalho de disseminação, os mobilizadores do Futura entram em contato direto com escolas públicas e, portanto, podem ajudar essas escolas a entender e, oportunamente, colocar em prática, os princípios sobre os quais se alicerça o programa, ampliando, assim, consideravelmente, o alcance do programa.
Assinalou-se, atrás, que o objetivo do programa é melhorar a qualidade da educação ministrada nas escolas públicas brasileiras, usando a tecnologia como alavanca e tendo como contexto as mudanças que ela está produzindo na sociedade.
É oportuno, portanto, fazer um rápido esboço dessas mudanças, no que elas afetam a educação e a escola. Esse esboço vai nos permitir concluir que vivemos em uma nova sociedade e que, nessa sociedade, a visão tradicional (ainda prevalecente) da educação e do papel da escola em sua promoção foi totalmente ultrapassada.
Nos últimos 50 anos temos vivido em meio a uma revolução: saímos da Sociedade Industrial para a Sociedade da Informação. A partir dos ano 50 do século passado, não só o computador, mas, começando um pouco antes dele, a televisão, transformaram radicalmente a sociedade em que vivemos.
Essas tecnologias de informação e comunicação fazem com que
hoje tenhamos, não carência, mas sobrecarga de informação. Temos acesso - e
acesso fácil - a uma quantidade de informação que, 50 anos atrás, seria
inimaginável. Nossa maior dificuldade, hoje, não é obter informação: é saber o
que fazer com tanta informação.
Por isso, hoje não faz sentido considerar a função principal da escola como
sendo transmitir informações aos seus alunos - que é como ela vê a sua função
(doutra forma, como explicar os currículos cada vez mais enciclopédicos?).
Se isso é verdade, e parece inegável, o trabalho que a escola hoje vem fazendo, mesmo quando eficiente, é ineficaz.
Acrescentemos a isso que a maior parte do tempo esse trabalho não é bem feito (i.e., é ineficiente), isto é, a escola não consegue que as informações que transmite aos alunos sejam assimiladas e colocadas a bom uso. Mesmo quando os alunos assimilam as informações transmitidas, eles as retêm por pouquíssimo tempo (em geral até a prova).
Assim, a escola de hoje está diante de um dilema: de um lado, não é de modo algum eficaz, isto é, não consegue exercer a nova função que a Sociedade da Informação exige e espera dela; de outro lado, não é mais eficiente no exercício de sua função tradicional, não mais fazendo bem aquilo que a Sociedade Industrial um dia exigiu e esperou dela.
A Sociedade Industrial dava ênfase ao desenvolvimento
econômico. A Sociedade da Informação privilegia o desenvolvimento humano - até
mesmo como condição necessária para o desenvolvimento econômico.
Ao tomar consciência desse contexto, começamos a entender melhor por que somos a
10ª economia do mundo mas estamos no 69º lugar no Índice de Desenvolvimento
Humano das Nações Unidas. O setor econômico acaba por encontrar formas, através
de treinamento nas empresas, de compensar algumas das falhas da escola. Por
isso, nossa economia, em muitos aspectos, é uma economia do tipo que Alvin
Toffler chamou de Terceira Onda. Mas fora do setor econômico, no plano do
desenvolvimento humano, vemos o país situado em posição semelhante à de países
extremamente subdesenvolvidos na área econômica e que vivem totalmente ainda na
Segunda Onda - ou até mesmo na primeira.
A distância que separa o 69º do 10º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano não será percorrida sem uma considerável melhoria na qualidade da educação pública brasileira.
O objetivo maior do programa é, portanto, melhorar a qualidade da educação das escolas públicas brasileiras e ele se propõe usar a tecnologia para alcançar esse objetivo.
No entanto, a experiência tem mostrado, em outros programas e nos estágios iniciais deste mesmo, que os resultados da introdução da tecnologia na escola (pública ou privada) têm ficado, na maior parte dos casos, bastante aquém das expectativas.
O desafio que o "Sua Escola" se colocou, portanto, foi descobrir as razões de a tecnologia não ter conseguido contribuir para a melhoria da qualidade da educação ministrada em nossas escolas.
O programa chegou à conclusão de que melhorar a qualidade de uma instituição como a educação pública brasileira é um objetivo que pode ser interpretado de duas maneiras (basicamente alternativas e, portanto, não muito compatíveis), a saber:
Como envolvendo um aperfeiçoamento dos meios que a instituição presentemente utiliza para alcançar seus atuais fins (enfoque instrumental, voltado para a eficiência)
Como envolvendo uma revisão dos atuais fins da instituição, que, uma vez revistos, certamente irão exigir novos meios (enfoque finalista, voltado para a eficácia)
A primeira abordagem pressupõe que os fins atualmente buscados pela educação pública brasileira, e, conseqüentemente, pela escola pública brasileira, estão basicamente em ordem, só sendo preciso aperfeiçoar os meios que ela usa para alcançar esses fins.
A segunda abordagem questiona que esses fins estejam em ordem e procura definir quais são os fins que devem ser buscados pela educação pública brasileira, e, conseqüentemente, pela escola mediante a qual ela é oferecida à população, para, só então, tratar da questão dos meios.
A conclusão do programa foi de que a experiência mostra que não se conseguem melhorias significativas na qualidade da educação pública brasileira e das escolas que a promovem atuando apenas no plano dos meios, sem tocar no plano dos fins.
Para rever os fins da educação e encontrar um novo papel para escola é necessário, porém, levar extremamente a sério as transformações que vêm ocorrendo em nossa sociedade, em grande parte em decorrência da introdução maciça da tecnologia em todas as suas áreas, até mesmo na vida diária.
É por isso que o programa concluiu que a melhoria da qualidade da educação ministrada nas escolas públicas brasileiras deve ser buscada não só usando a tecnologia como alavanca, mas tendo como contexto as mudanças que a tecnologia está produzindo na sociedade. Ou seja, o programa deseja contribuir para que a educação ministrada nas escolas públicas brasileiras tenha a qualidade que a Sociedade da Informação exige e espera delas.
Se estamos preocupados em melhorar a qualidade da educação pública brasileira e da escola que a promove, fica evidente que não estamos satisfeitos com a educação e a escola que temos.
É preciso, porém, ter clareza sobre quais são as características que nos deixam insatisfeitos na educação e na escola que temos. Sem essa clareza, torna-se difícil ter clareza sobre qual é a educação e a escola que queremos.
A educação como desenvolvimento humano (que é o que o programa propõe) é uma concepção de educação que se contrapõe, de um lado, à concepção da educação como processo de informação (transmitir a herança cultural da humanidade), e, de outro lado, à concepção da educação como processo de formação (dar a forma que se considera adequada àquilo que não tem forma).
Embora simplificações sejam arriscadas, é justificável dizer que a concepção de educação como informação e a concepção de educação como formação vêm a educação como um processo que tem lugar, fundamentalmente, em relação à criança, de fora para dentro, e, possivelmente, de cima para baixo, enquanto a concepção de educação como desenvolvimento vê a educação como um processo que tem lugar, fundamentalmente, de dentro para fora e, por assim dizer, de baixo para cima, no que diz respeito à criança.
Assim, a concepção de educação como informação e a concepção de educação como formação acabam sendo centradas mais nas necessidades da sociedade (que deseja preservar sua herança cultural e manter cada um no lugar que lhe é definido) do que nas necessidades de desenvolvimento da criança.
5. A Visão Atual do Papel da
Escola
A escola que temos hoje (não só na educação pública) surgiu no início da Era Moderna, em decorrência da Reforma Protestante e da industrialização, e conseqüente urbanização, da sociedade. A escola originalmente era particular, mas pouco a pouco foi se tornando predominantemente estatal.
Seu objetivo básico era, além de desenvolver nos alunos a habilidade de ler e escrever (alfabetizar), transmitir a eles as informações que a sociedade (através dos pedagogos) definiu como necessárias para a sua formação - porque sua visão da educação era a de que é transmitindo-lhes a herança cultural da humanidade que se dá forma aos alunos.
As características básicas dessa escola são:
Seu currículo é uma grade de disciplinas e séries que organiza as informações a serem transmitidas aos alunos
Seu método de trabalho é o ensino, entendido como a apresentação aos alunos dessas informações
A função do professor é ensinar em segmentos de tempo denominados aula e em espaços denominados salas de aula
A função do aluno é aprender, entendido como a absorção das informações apresentados pelos professores
Essa escola dá ênfase aos conteúdos a serem transmitidos, ao professor que domina esses conteúdos, e ao ensino, que é o método de transferir os conteúdos dos professores para os alunos. Ela avalia verificando se os alunos absorveram as informações transmitidas: se eles não absorveram, ou não absorveram no nível desejado, são retidos na mesma série e as mesmas informações lhes são transmitidas mais uma vez (até que as absorvam).
A experiência mostra que, diante das profundas transformações de nossa sociedade, é preciso:
Reconceituar a educação
Reinventar a escola
Essa reconceituação da educação e essa redefinição do papel da escola precisam ser feitas com pleno reconhecimento de que a escola perdeu (talvez para sempre) o quase monopólio que tinha na tarefa educacional.
Parte II: A Educação
e a Escola na Nova Sociedade
A educação é hoje permanente, constante, multi-institucional, difusa (sem limites claros com trabalho e lazer), acontecendo, cada vez mais, através, ou com o apoio, da tecnologia.
Mas não basta reconhecer isso: é preciso reconceituá-la: redefinir o seu objetivo, recaracterizá-la.
Uma nova visão da educação, que tem sido advogada e defendida, entre outros, pela UNESCO, define o objetivo da educação como sendo promover o desenvolvimento humano e caracteriza a educação como o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, produtiva e competente. (Expressando de forma mais poética, educar é ajudar as pessoas a sonhar os próprios sonhos e a se tornar capazes de transformá-los em realidade).
Embora o desenvolvimento de outros animais seja quase
totalmente determinado pelo seu equipamento genético, o desenvolvimento do ser
humano tem de levar em conta também o fato de que o ser humano é livre e
racional, e, portanto, capaz de, a partir de um determinado momento, definir um
projeto de vida, com base em seus interesses e seus sonhos (aquilo que ele quer
e espera da vida), e de procurar transformá-lo em realidade.
Por isso, a educação como desenvolvimento humano deve ser centrada na criança e
procurar criar condições para que ela possa, de um lado, desenvolver seus
interesses e sonhar seus sonhos, e, de outro lado, desenvolver as competências e
habilidades necessárias para promover esses interesses e transformar esses
sonhos em realidade.
A educação como desenvolvimento está longe, porém, de ser uma concepção "negativa" ou "laissez faire" da educação, que postula que a criança se desenvolve melhor quando deixada sozinha, mas, pelo contrário, defende ardorosamente a tese de que educar é criar as melhores condições possíveis para que a criança se desenvolva, não abrindo mão de uma ação positiva tanto no plano pessoal (através dos pais e dos demais educadores) como no plano institucional (através de escolas e outras instituições com funções educacionais), pois doutra forma não faria sentido propor uma nova escola.
Portanto, se encarado de forma séria e não meramente paliativa, o objetivo de melhorar a qualidade da educação pública brasileira deve ser interpretado da segunda maneira indicada e abranger uma revisão dos fins dessa educação e, naturalmente, uma discussão dos meios mais adequados para a consecução dos novos fins que lhe forem atribuídos, o que vai implicar uma verdadeira reinvenção da escola.
2. Uma Nova Visão do Papel da
Escola
Essa nova visão da educação (importante para permitir que ela cumpra o seu papel na Sociedade da Informação) é absolutamente incompatível com escola que atualmente existe (desenvolvida para atender às necessidades da Sociedade Industrial).
Para que a escola possa promover uma educação definida como desenvolvimento humano, ela precisa ser transformada radicalmente, especialmente os seguintes principais aspectos:
seus objetivos
sua organização curricular
seus métodos de trabalho
sua concepção do papel do aluno
sua concepção do papel do professor
sua maneira de organizar o espaço e o tempo
suas formas de gestão
sua relação com outras instituições
Para chegarmos, portanto, da escola que temos para a escola que queremos, é preciso traçar o caminho a ser percorrido, é preciso desenhar o mapa da reinvenção da escola. Os princípios em que se alicerça o "Sua Escola" são uma tentativa de traçar esse caminho, de desenhar esse mapa, que nos leve da escola que temos para a que queremos.
3. A Tecnologia na Educação e
na Escola
A introdução da tecnologia (ou outros melhoramentos) na escola, mantidos seus objetivos atuais, sua atual organização curricular, seus atuais métodos de trabalho, sua concepção atual do papel de professores e alunos, sua maneira de organizar o espaço e o tempo, e suas atuais formas de gestão, pode levar a pequenos ganhos de eficiência, mas não vai tornar a escola eficaz para realizar o que se espera da educação na Sociedade da Informação.
Embora a mera introdução da tecnologia na escola não vá transformá-la na direção necessária para atender às exigências deste momento histórico, o século XXI, é inconcebível que a nova escola, voltada para a promoção da educação como desenvolvimento humano, e alicerçada nos "Quatro Pilares" da educação definidos pela UNESCO, não faça amplo uso das tecnologias de informação e comunicação hoje tão fundamentais para a Sociedade da Informação.
Uso criativo e inovador da tecnologia é aquele que promove a educação como desenvolvimento humano e que dá suporte aos objetivos da nova escola.
A natureza da escola decorre de seus objetivos. Se o objetivo da escola é promover a educação, e a educação, como desenvolvimento humano, é caracterizada como o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, produtiva e competente, a natureza da escola deve ser a de um lugar privilegiado no qual as crianças têm condições de dar um impulso inicial e concentrado à tarefa de se tornarem capazes de viver suas próprias vidas - tarefa essa que, entretanto, é permanente, e, portanto, terá continuidade mesmo depois de elas deixarem de ser crianças e saírem da escola.
Se a escola é um local privilegiado em que as pessoas
aprendem a viver vidas livres e responsáveis, autônomas e solidárias, é
necessário que nela as crianças possam exercitar sua liberdade, sem perder de
vista sua responsabilidade, e sua autonomia, sem perder de vista sua
solidariedade, pois essas características só se desenvolvem na justa medida em
que são praticadas. O mesmo se pode dizer em relação à sua imaginação e
criatividade. Assim, não se concebe uma escola em que tudo já vem definido,
pronto e acabado; em que se aprende (quando se aprende) apenas o que já está
previamente determinado, no local e na hora estipulados, com pessoas escolhidas
sabe-se lá por quem e mediante quais critérios, e através de métodos na
definição dos quais não se teve nenhuma participação; em que não há espaço para
o novo, o diferente, o experimental.
Se a escola é um local privilegiado em que as pessoas aprendem a viver vidas
produtivas e competentes, é necessário que ela não esteja divorciada da
sociedade em que as crianças vão oportunamente atuar profissionalmente e que,
nela, as crianças possam exercitar as competências e habilidades que precisam
desenvolver - tanto as básicas, como, por exemplo, busca e análise de
informações, formação e justificação de pontos de vista, apresentação e defesa,
tanto oral como escrita, de pontos de vista, trabalho em equipe, negociação de
objetivos, resolução de conflitos, gerenciamento de emoções, administração do
tempo, gestão de projetos de vida, e tantas outras, como as especializadas,
requeridas para o exercício de uma atividade produtiva. Ou seja, a escola
precisa ser um espaço e um ambiente em que os alunos são ativos, e as atividades
que eles exercem precisam ser semelhantes às que vão exercer quando saírem da
escola.
Tudo na escola - desde a definição do currículo até a organização do espaço e do
tempo e as formas de gestão - precisa ser coerente com essa visão dos objetivos
e da natureza da escola.
A escola tradicional tem por objetivo principalmente informar, transmitir informações. Até mesmo o objetivo de formar é freqüentemente reduzido a informar (educação moral não passa da transmissão de algumas informações sobre valores, costumes e leis; educação sexual não passa da transmissão de algumas informações sobre anatomia e fisiologia, sobre o processo de reprodução humana, sobre como se precaver contra doenças venéreas e gravidez indesejada). Por isso o seu currículo se assemelha a uma matriz composta por disciplinas, no plano vertical, e por séries, no plano horizontal. As disciplinas organizam as informações a serem transmitidas. As séries dosam essas informações de conformidade com a idade ou, mais raramente, a maturidade intelectual do aluno.
Na nova escola, o currículo deve ser centrado no desenvolvimento, de um lado, da imaginação e da criatividade, requeridas para a definição de um projeto de vida próprio, e, de outro lado, das competências e habilidades necessárias para transformar em realidade o projeto de vida de cada um. Como não há duas pessoas absolutamente iguais, dificilmente haverá dois projetos de vida absolutamente idênticos, e, portanto, as pessoas não só podem, como devem, dar vazão aos seus gostos, aptidões e preferências e desenvolver as competências e habilidades que os promovam. Isso significa que o currículo precisa ser não só rico em opções e alternativas, mas também flexível, ajustável às diferenças individuais, personalizável até no plano individual.
Felizmente há competências e habilidades básicas que, com toda probabilidade, a maior parte das pessoas deve desenvolver (busca e análise de informações, formação e justificação de pontos de vistas, apresentação e defesa, tanto oral como escrita, de pontos de vista, trabalho em equipe, negociação de objetivos, resolução de conflitos, gerenciamento de emoções, administração do tempo, gestão de projetos de vida). Outras competências e habilidades se distribuem pelos planos cognitivo, afetivo-emocional, interpessoal e até mesmo psicomotor (afinal de contas, se alguém tem, como projeto de vida, ser atleta, ator/atriz, artista plástico, as competências e habilidades psicomotoras são essenciais). Não é necessário, porém, que todas as crianças desenvolvam, enquanto na escola, todas essas competências e habilidades, mesmo que elas não sejam totalmente especializadas: basta que desenvolvam aquelas necessárias para o seu projeto de vida e que, portanto, façam sentido para elas.
Uma forma interessante de organizar as competências e habilidades no currículo é agrupá-las de acordo com os Quatro Pilares da educação sugeridos pela UNESCO, embora seja inegável que algumas competências e habilidades (as lingüísticas, por exemplo) sejam enquadráveis, indistintamente, em todos os Quatro Pilares. Assim, teríamos competências e habilidades comuns a vários pilares, ou mais afins ao ser, ao conviver, ao fazer, ou ao aprender. Os Quatro Pilares seriam, assim, os grandes princípios organizadores do currículo, no plano vertical, em substituição às disciplinas atuais.
Na verdade, se atentarmos aos esforços hoje feitos para inserir temas transversais no currículo centrado em disciplinas, poderíamos dizer que no novo currículo os Quatro Pilares ocupam o lugar das disciplinas e é o conteúdo das disciplinas que deve ser transversalizado. (No plano horizontal da matriz curricular, como se verá adiante, estarão os projetos de aprendizagem: alguns dos conteúdos hoje tidos como disciplinares aparecerão, conforme se mostrar necessário, nos projetos de aprendizagem; se não aparecerem, talvez não sirvam mesmo para nada, a não ser alimentar as especialidades de professores universitários e pesquisadores).
Embora a escola deva apresentar um currículo rico, o princípio da flexibilidade curricular permitirá que o currículo a ser cumprido por cada um dos alunos seja personalizado até mesmo no plano individual.
Competências e habilidades básicas são aquelas definidas como necessárias para a maior parte das pessoas, no tipo de sociedade em que vivemos, independentemente do projeto de vida de cada um. Competências e habilidades específicas são mais avançadas (visto que pressupõem as básicas) e são definidas, individualmente, com base nos interesses, estilos cognitivos, talentos pessoais, e, naturalmente, opções profissionais de cada um.
Boa parte da atenção dos profissionais da educação no futuro próximo deve estar voltada para a definição de competências e habilidades básicas e para a construção de um currículo de educação pré-universitária centrado no desenvolvimento de competências e habilidades, básicas e específicas.
O método de trabalho por excelência da escola tradicional é a aula expositiva, que consiste na apresentação sistemática e ordenada, pelos professores, das informações a serem transmitidas aos alunos. Pressupõe-se que a mera exposição das informações ("o dar a matéria") é suficiente para o aprendizado dos alunos.
Na escola tradicional, portanto, o trabalho é centrado no ensino (entendido como exposição de informações) e, por conseguinte, nas disciplinas (o conteúdo do ensino) e no professor (o ensinante, por excelência). Nela, ensinar é dar aula de uma disciplina (expor informações referentes a uma determinada matéria na dosagem recomendada para uma determinada série).
No que diz respeito ao aluno, seu trabalho é concebido como aprender, mas seu aprender é entendido como algo basicamente passivo: ficar quieto, prestar atenção e, assim, absorver a matéria que lhe foi apresentada (ensinada). O aluno que falta acima de um percentual máximo é automaticamente reprovado, mesmo que tenha aprendido, ou que já saiba, o que os alunos que não faltaram aprenderam.
A epistemologia que subjaz ao método de trabalho da escola tradicional é a de que a criança, ao nascer, é uma tabula rasa: o que oportunamente fica gravado nessa folha de papel em branco é escrito "de fora" - na escola, pelo professor. À criança basta deixar que escrevam em sua tabula (a criança rebelde sendo a que não se conforma com isso...).
Na nova escola, o método de trabalho é centrado no aluno e é fundamentalmente ativo. A forma mais adequada de, na escola, se alcançar o desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades (inclusive no plano da imaginação e da criatividade), é o trabalho com projetos transdisciplinares de aprendizagem, centrados em seus interesses.
Esse método consiste no planejamento, na execução e na avaliação (i.e., no desenvolvimento) de projetos de aprendizagem definidos pelos alunos, com base em seus interesses, mas que devem desembocar sempre, e simultaneamente, no desenvolvimento de competências e habilidades básicas ou específicas (sendo parte do trabalho do professor garantir que o façam).
A razão pela qual o trabalho com projetos é o método de trabalho mais adequado para a nova escola está relacionada ao fato de que a educação que essa escola deve promover está intrinsecamente relacionada com o desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades que lhes permitam elaborar e executar seu projeto de vida. A vida de cada um é, portanto, o principal projeto que ele tem de elaborar e executar. Trabalhar com projetos de aprendizagem é a melhor forma de ajudar o aluno a desenvolver as competências e habilidades para enfrentar esse projeto maior, que é definir e planejar a sua vida, e fazer com que ela dê certo.
A epistemologia que subjaz ao método de trabalho da nova escola é a de que as pessoas aprendem principalmente fazendo, fato que reforça a aprendizagem por projetos, definidos, planejados, executados e avaliados pelos alunos, que é uma aprendizagem ativa. O aprender ouvindo ou vendo os outros fazer é um aprender passivo, que, embora possível, não é tão eficiente e eficaz quanto o aprender ativo, o aprender fazendo.
Informações relevantes aos projetos, e que hoje fazem parte do conteúdo das disciplinas do currículo tradicional, devem ser incorporadas ao longo da implementação dos vários projetos, à medida que se mostrarem necessárias, estratégia que "transversaliza" as disciplinas e coloca de cabeça para baixo a estratégia proposta pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do governo.
Projetos de aprendizagem podem ser individuais ou envolver grupos de alunos, independentemente de sua idade, fato que torna sem sentido a organização da escola em turmas, séries e classes. As unidades de organização da nova escola são os projetos de aprendizagem.
Se deixarmos fluir naturalmente os interesses dos alunos, os projetos de aprendizagem que escolherem vão ser, quase que fatalmente, transdisciplinares ou, pelo menos, interdisciplinares, em sua natureza. Esse fato, por si só, torna sem sentido organizar o currículo na forma de disciplinas.
Ao longo do processo de escolarização, é recomendável que todos os alunos tenham desenvolvido as competências e habilidades consideradas como básicas e algumas especializadas, mas não é necessário que o tenham feito através dos mesmos projetos - nem, muito menos, que tenham adquirido, no processo, as mesmas informações.
Os atores principais na escola tradicional são os professores, que são os repositórios vivos das informações que devem ser transmitidas. Como as informações estão organizadas em disciplinas e séries, os professores também se definem como especialistas nas informações de determinadas disciplinas em determinadas séries ("Professor de História do Brasil na 1ª série do Ensino Médio", por exemplo). Professores são "dadeiros" de aula, que correm de uma sala para outra, freqüentemente de uma escola para outra.
Os alunos são vistos como os "beneficiários" do processo: recipientes basicamente passivos do trabalho feito pelos professores. São colocadas aspas em "beneficiários" porque os alunos em geral não se reconhecem como tal, sendo evidência de seu bom senso e de sua saúde mental que não o façam.
Os atores principais da nova escola são os alunos. O foco da escola deve estar na aprendizagem dos alunos, não no ensino dos professores, porque a aprendizagem, concebida de forma ativa, é decorrente da participação dos alunos nos projetos.
Assim, o aluno deve ser visto como o autor de sua aprendizagem e ator principal no processo de seu desenvolvimento, servindo o professor como facilitador da aprendizagem do aluno e do processo de seu desenvolvimento.
Conseqüentemente, os interesses que contam no processo de aprendizagem na nova escola devem ser os dos alunos, fato que obriga a aprendizagem a ficar contextualizada nas experiências dos alunos na comunidade em que vivem, pelo menos como ponto de referência a partir do qual a escola, através dos professores, pode e deve procurar desvelar novos horizontes e abrir perspectivas mais amplas.
Os professores, além de serem os facilitadores do processo, devem se preocupar com garantir que os projetos desenvolvidos desemboquem no desenvolvimento de competências e habilidades e podem servir como fontes de referência dentro das suas áreas de interesse e especialidade.
Isso não desmerece ou desvaloriza o trabalho do professor. Muito pelo contrário: esse trabalho, como aqui definido, além de muito mais relevante e importante para a aprendizagem do aluno, é muito mais difícil e desafiante do que "dar aula" (no sentido tradicional) para uma audiência passiva e desmotivada.
6. A Organização do Espaço e do
Tempo
O espaço da educação escolar tradicional é a sala de aula. A sala de aula tem um tamanho razoavelmente padrão (trinta a quarenta alunos em média), definido pelo alcance da voz de um professor normal, desassistido pela tecnologia. Se a sala de aula é muito grande, ou os alunos fazem barulho, o professor grita mais... (Os cursinhos pré-vestibulares, dando tecnologia - um microfone - ao professor, permitiram que a sala de aula passasse a ter até 250 lugares). A sala de aula é disposta de forma a que o professor possa controlar com a visão todos os alunos. Em alguns casos há uma plataforma que permite que o professor fique em posição elevada em relação aos alunos. (As semelhanças entre a sala de aula e os escritórios tradicionais são impressionantes).
A escola tradicional é, assim, notoriamente desprovida de espaços que não sejam salas de aula voltadas para o ensino, entendido este como a apresentação de informações em aula expositiva.
O tempo da educação escolar tradicional é a aula. Como as pessoas, em especial crianças, não conseguem, em regra, ficar sentadas, imóveis, passivas, ouvindo alguém falar, por um período muito longo, o tempo escolar foi dividido em segmentos em geral de 50 minutos por 10 minutos de descanso. Imagina-se que a educação acontece durante os 50 minutos de aula, o que se passa no intervalo sendo apenas descanso ou lazer, sem importância para a educação.
A escola tradicional é, assim, notoriamente desprovida de tempos que não sejam regulados pela aula expositiva de 50 minutos.
Para que o trabalho de alunos e professores produza os resultados desejados, a metodologia de projetos exige, da parte dos professores, a criação e organização de espaços e ambientes de aprendizagem em que, na forma de projetos de natureza transdisciplinar ou interdisciplinar, os alunos possam investigar questões e resolver problemas que os preocupam e desafiam.
Os espaços e ambientes da nova escola devem contemplar as necessidades de aprendizagem dos alunos, não o ensino, entendido como aula expositiva. Assim, na escola devem ser criados e organizados espaços e ambientes como, por exemplo (a lista de possibilidades é interminável):
Salas de discussão para pequenos grupos;
Salas agradáveis para leitura descontraída;
Bibliotecas que contenham algo mais do que livros didáticos descartáveis;
Ambientes, com os recursos necessários, para ouvir música, tocar instrumentos, cantar, fazer teatro;
Locais adequados, com os recursos adequados, para assistir à televisão (até mesmo em língua estrangeira), ver vídeos, usar computadores, aceder à Internet, jogar videogames;
Estúdios e estações comunitárias de rádio e televisão e redações de jornais, tanto escolares como comunitários;
Laboratórios de informática em que alunos e professores possam se comunicar com o mundo exterior ou mesmo interno, compor textos, preparar trabalhos e apresentações, usar equipamentos fotográficos e de vídeo, tirar e tratar fotos e filmes digitais, construir sites e páginas Web;
Ateliês de pintura, escultura, bordado, e de outros tipos de trabalho manual;
Oficinas de vários tipos em que alunos e professores possam construir ou consertar coisas;
Hortas e jardins em que possam trabalhar com a terra;
Cozinhas em que possam aprender ou praticar habilidades culinárias;
Refeitórios adequados em que possam se alimentar com calma em ambiente agradável;
Instalações esportivas e atléticas adequadas em que possam se socializar, se divertir ou desenvolver seu corpo.
Embora na nova escola deva haver salas de discussão e auditórios (em que ocasionalmente possa haver palestras, bem como a exibição de filmes de grande demanda e a realização de shows musicais e peças de teatro), não é recomendável que nela haja salas de aula e salas de acesso exclusivo dos professores.
Quanto à organização do tempo, o professor deve estar
constantemente junto do aluno, apoiando, ajudando, incentivando, e motivando o
aluno para que este, assumindo a parcela de responsabilidade que lhe cabe pela
sua aprendizagem, procure encontrar respostas às suas questões e enfrentar
corajosamente seus desafios.
Cada escola deve ter seu quadro de professores em tempo integral - afinal de
contas, é só na organização do espaço e do tempo da escola tradicional que pode
fazer algum sentido um professor passar apenas algumas horas do dia numa escola
e trabalhar em duas ou três escolas diferentes ao mesmo tempo.
Os professores devem passar seu dia em trabalho junto dos alunos, resistindo à tentação de manter ambientes segregados durante intervalos de café ou almoço. O agendamento do dia deve ser feito em resposta às necessidades dos projetos em andamento e não deve se limitar a períodos de duração pré-definida.
A estrutura administrativa da escola tradicional respeita os princípios da especialização e da divisão do trabalho (como, de resto, o faz a empresa tradicional). O diretor, a quem compete gerir toda a escola, em seus aspectos pedagógicos e puramente administrativos, é auxiliado por um assistente (às vezes o vice-diretor ou o secretário), que cuida da burocracia administrativa; por um coordenador pedagógico que supervisiona os professores e, portanto, se preocupa, indiretamente, com os alunos no plano cognitivo (sendo por isso chamado tradicionalmente de "supervisor pedagógico"); e, às vezes, por um outro profissional (inspetor de alunos, orientador educacional, ou psicólogo escolar) que dá atenção aos alunos no plano afetivo, interpessoal e até mesmo psicomotor.
Na realidade, porém, no plano pedagógico, o diretor se relaciona com o coordenador que se relaciona com os professores que se relacionam com os alunos. Se a escola tem vinte turmas, cada professor gerencia, num determinado momento, os trinta ou quarenta alunos de sua turma, o coordenador pedagógico gerencia os vinte professores, e o diretor gerencia os seus dois ou três auxiliares diretos, numa hierarquia piramidal que representa a racionalidade administrativa da escola tradicional. Os funcionários administrativos e de apoio da escola não são vistos como tendo qualquer papel pedagógico.
A forma de gestão dessa escola é hierárquica e não participativa. Embora professores possam participar da gestão da escola dentro de sua esfera de competência, alunos normalmente não participam do processo de tomada de decisão em nenhum nível e em nenhuma de suas fases, nem mesmo na fase de execução dentro da sala de aula, quando estão diretamente envolvidos no processo - quanto mais nas fases de planejamento e avaliação. Na verdade, eles não têm a menor participação no processo decisório da escola.
Se virmos a escola tradicional como um teatro, os alunos não chegam sequer a ser atores coadjuvantes: não passam de membros da platéia que, vez ou outra, são chamados a exercer a função de figurantes. Os professores, por sua vez, embora sejam os atores principais dentro da sala de aula (que é definida como o "seu" espaço), não participam, em regra, da elaboração do roteiro, nem da direção do espetáculo...
Transformar a escola tradicional ("a escola que temos") em uma nova escola ("a escola que queremos") significa mudar os modos de pensar e agir das pessoas que nela atuam e criar outros que satisfaçam às exigências do novo paradigma.
Uma grande causa da dificuldade está no fato de que, às vezes, no plano individual, cada um deseja a mudança, mas no plano coletivo as coisas se complicam por causa de interesses pessoais conflitantes, rivalidades de vários tipos, inveja, jogos de poder, etc., que acabam por produzir resistências. Se uma idéia é sugerida por um grupo, o outro já se sente na obrigação de se opor a ela... (mesmo que, em outras situações, pudesse estar ele mesmo propondo aquela idéia!).
Uma outra grande dificuldade está no fato de que, em regra, até que abandonemos as velhas formas de fazer as coisas, não estaremos totalmente prontos para adotar as novas formas de fazer as coisas. Para aprender o novo temos que, primeiro, desaprender o velho... E isso é difícil, porque o velho muitas vezes se nos tornou uma segunda natureza, e temos que desvesti-la com o carro em movimento, por assim dizer. Começamos a tentar o novo enquanto nos vemos obrigados a, pelo menos formalmente, executar o velho, e, por isso, as pequenas mudanças que realizamos parecem não surtir muita diferença. Pensamos em desenvolver competências e habilidades, mas temos que cumprir um currículo organizado em termos de disciplinas, cujo programa é constituído basicamente de informações a serem apresentadas aos alunos. Pensamos em trabalhar por projetos, mas temos que dar aulas para classes de 40 alunos aos quais dedicamos 50 minutos de nosso tempo de cada vez.
Nesse contexto a estrutura administrativa a que a escola pública pertence pode também ser um sério impedimento (como, por outro lado, pode ser de grande ajuda, se for constituída por pessoas que estejam convencidas da necessidade de mudar e estiverem munidas dos instrumentos que facilitem as mudanças). A escola pública em geral faz parte de uma estrutura administrativa externa, respondendo a uma Secretaria da Educação, estadual ou municipal, com ou sem a interveniência de órgãos intermediários. Em geral é fora da escola que se definem a matriz curricular, a quantidade de dias letivos, a duração dos turnos, a duração das aulas (que pode variar dependendo do turno), a carga horária das disciplinas nas várias séries, e tudo o mais que, a rigor, deveria estar a serviço dos objetivos educacionais da escola mas que acaba por limitá-la e por cercear a sua ação. Por outro lado, a estrutura administrativa interna (diretor, coordenador pedagógico, etc.) em geral define o que pode e o que não pode ser feito na rotina escolar e qual o espaço de manobra que cada um tem, se é que tem. Aqui se incluem coisas como modos de trabalho de professores e alunos, formas de avaliação, normas disciplinares, enfim, a dinâmica da escola.
Não é fácil mudar essas coisas. Por isso muitos adotam uma atitude fatalista, afirmando desejar mudanças (valores proclamados) mas se curvando ao ethos estabelecido (valores praticados). Mas ninguém está dizendo que seja fácil mudar a escola. Importa fazer o que precisa ser feito, não o que é mais fácil fazer.
No entanto, mudar da escola tradicional para a nova escola de uma forma autoritária e impositiva seria um contra-senso. A mudança, aqui, como a educação que se deseja promover, tem que partir de baixo para cima e de dentro para fora... O primeiro passo é se convencer de que é preciso mudar; o segundo, de que é possível mudar. O terceiro passo envolve saber como fazê-lo.
Ao transformar a escola tradicional em uma nova escola, todos, em maior ou menor grau, serão incomodados. Por isso, mudar os modos de pensar e agir significa passar por discussões, reflexões e tomadas de decisão pela comunidade escolar (e comunidade escolar não são apenas os professores...). É importante deixar claro, no processo, quais são as utopias coletivas, em relação à sociedade e ao aluno que deve ser formado para construir essa sociedade, que existem na comunidade escolar, e, se possível, procurar consensos. E não é possível deixar os pais à margem do processo. Muitos pais, por não terem tido ocasião de refletir sobre essas questões, querem uma escola tradicional para seus filhos... Tudo deve ser registrado e divulgado.
Se a criação da nova escola for coletiva, poderão se encontradas, para a gestão escolar, estruturas em rede (relações horizontais), em vez de estruturas piramidais (relações verticais), cultura de parceria, em vez de cultura de subordinação, gestão por objetivos, em vez de gestão por normas, gestão de mudanças (a escola em movimento), em vez de gestão da burocracia e da rotina (a escola parada), gestão dos espaços de aprendizagem, em vez de gestão sala de aula, gestão de recursos, em vez de administração do tempo. Em outras palavras, as formas de gestão da escola devem estar a serviço dos objetivos que ela deve alcançar: conseguir que os alunos se tornem capazes de sonhar seus próprios sonhos e de transformá-los em realidade. Para isso, todos, do diretor ao servente, devem cooperar.
8. Relação com Outras Instituições
Tempo houve em que a família e a escola, ao lado, talvez, da igreja, eram os únicos agentes educacionais. Até mesmo nossas Leis de Diretrizes e Bases da Educação anteriores à atual se referem à educação como sendo atribuição da família e da escola - ponto final. Tudo isso mudou com a chegada dos meios de comunicação de massa e das novas tecnologias de informação e comunicação, que transformaram a sociedade a tal ponto de alguns se referirem à Sociedade da Informação como a "Sociedade do Aprendizagem" ("Learning Society"), pois a maior parte das instituições e interações passaram a ter, pelo menos potencialmente, uma função educativa.
Assim, além da família e da escola, locais de trabalho, associações profissionais (como sindicatos), centros comunitários de cultura e lazer, igrejas, órgãos de governo, grandes empresas, organizações não governamentais, organizações internacionais, etc., para não mencionar os meios de comunicação, que serão discutidos no capítulo seguinte, estão também se dando atribuições educacionais.
Embora algumas dessas instituições encarem seu papel
educacional de forma bem tradicional, e como supletivo ao da escola tradicional,
outras, em especial as grandes empresas, as organizações não governamentais e as
organizações internacionais, têm bastante clareza de que a escola tradicional
não vem exercendo a contento sua função educacional na Sociedade da Informação,
e de que, portanto, elas precisam assumir um papel cada vez mais importante na
promoção de uma educação que realmente atenda às necessidades dessa sociedade.
Isso significa que a escola, que antigamente tinha o monopólio da educação
extra-familiar, hoje se vê cercada de outros agentes educacionais, que, em
alguns casos, têm uma visão bem mais clara da função da educação e do papel de
instituições educativas do que a própria escola.
Por isso, a nova escola, em vez de assumir uma postura crítica em relação a esses novos agentes educacionais, e de considerá-los como concorrentes e rivais, deve procurar unir seus esforços aos deles, em verdadeira parceria, para a consecução de um objetivo comum, a saber, o da promoção da educação como desenvolvimento humano. Caso contrário, tem seus dias contados.
Parte IV: A Educação, a
Escola e a Tecnologia
Aqui se fecha o círculo. Mencionou-se, no início, que neste texto se explicaria
porque os resultados da introdução da tecnologia na escola têm ficado, na maior
parte dos casos, aquém das expectativas. A explicação desse desapontamento está
no fato de que se espera que a tecnologia opere, por si só e como por milagre, a
melhoria da qualidade da educação.
Depois de longo período de perplexidade, as empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a história), que a mera introdução da tecnologia para alavancar processos (de produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes. Para isso, era necessário que se reinventassem, isto é, que, primeiro, reconcebessem o seu negócio, e, depois, redefinissem a melhor maneira de promovê-lo, com o apoio da tecnologia (se reengenheirassem). Foi assim que a IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se salvou da obsolescência tecnológica.
A grande contribuição do Sua Escola para a educação pública brasileira está em mostrar que na educação o processo não será diferente. Se, antes, a escola não se reinventar, a introdução da tecnologia (aí inclusos os meios de comunicação de massa) na sala de aula pouco contribuirá para a melhoria da qualidade da educação. Para que a tecnologia possa contribuir decisivamente para a melhoria da qualidade da educação pública brasileira, é necessário, primeiro, reconceber as finalidades da educação e, por conseguinte da escola, e, segundo, "reengenherar" a escola para que possa promover esses fins - agora com a ajuda da tecnologia e em parceria com outras instituições que hoje se revestem de papel educacional (até porque a escola não vem exercendo seu papel a contento).
Usar a tecnologia na educação de forma criativa e inovadora é usar a tecnologia para promover a educação como desenvolvimento humano (para ajudar as crianças a aprender a ser, a conviver, a fazer e a aprender). Descobrir como fazer isso na escola, com o carro em movimento, é desenvolver uma verdadeira tecnologia social que, uma vez produzida, poderá ajudar a escola pública brasileira a dar sua contribuição para que o país saia do vergonhoso sexagésimo nono lugar em que se encontra em termos de desenvolvimento humano.
Eduardo Chaves
26 de abril de 2002
Este é um documento oficial do Instituto Ayrton Senna. Os conceitos e informações nele contidos refletem o pensamento do Instituto Ayrton Senna e seu objetivo é divulgar propostas, teorias, idéias e diretrizes que possam contribuir para o aperfeiçoamento e a disseminação do trabalho social e educativo. A reprodução integral deste documento para fins de publicação, sob qualquer forma e por quaisquer meios, requer autorização por escrito do Instituto. Permite-se a reprodução parcial dos textos a pessoas e entidades sem fins lucrativos, desde que seja indicada explicitamente a sua fonte.